Lidice Ribeiro: “Tanto o secularismo como a religião podem tender a posturas fundamentalistas”

 

Aproveitando a sua presente estadia em Portugal conversámos com a Prof. Doutora Lidice Meyer Pinto Ribeiro, docente e investigadora na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, a propósito de alguns temas na área da ciência das religiões e do cristianismo em particular. Foram abordadas questões como o regresso à fé, os “desigrejados”, o envolvimento de cristãos na política, o pensamento pós-moderno e o neo-pentecostalismo.

 

Há mesmo um regresso à fé no mundo actual, como defendem alguns autores, ainda que eventualmente duma forma mais difusa e autónoma das estruturas religiosas?

Sim, há um aumento de espiritualidade no mundo moderno, o que não implica aumento da pertença a igrejas. A sede de espiritualidade é um fenômeno característico de nossa época. Lado a lado às religiões tradicionalmente reconhecidas há o crescimento de espiritualidades laicas, que não se enquadram no que pode ser classificado como igreja. A religião continua presente na vida do homem pós-moderno.

Como já afirmava o historiador das religiões Mircea Eliade, o homem é acima de tudo, Homus religiosus. Apesar da secularização, do individualismo crescente e da globalização, a modernidade não causou um recuo da religião, mas uma nova forma de exercício da dinâmica religiosa. O homem continua a buscar respostas para o mundo de incertezas em que vive, mas estas respostas não são necessariamente encontradas apenas “no seio de uma tradição imutável ou mediante um dispositivo institucional normativo” (Frédéric Lenoir).

Enquanto cientista das religiões como interpreta o presente e crescente fenómeno dos “desigrejados” no mundo evangélico?

Segundo o censo realizado pelo IBGE, 22,2% da população brasileira são evangélicos (cerca de 45 milhões de pessoas) e dentre estes 9,2 milhões se dizem “sem vínculo denominacional”. Isto representa algo em torno de 5% de toda a população brasileira. São evangélicos que não se enquadram nos canais tradicionais, sendo chamados por alguns de “evangélicos genéricos”, ou “evangélicos sem igreja”.

Mas, a crise das instituições religiosas não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Em todo o mundo cristão, os motivos apresentados são os mesmos: frustração com a estrutura eclesiástica engessada e mensagens desatualizadas, líderes autoritários, decepção com a vida moral de líderes religiosos, problemas de relacionamento pessoal, excesso de programações e de exigências que levam a um esgotamento físico e espiritual, dentre outros. A mensagem pregada, no que tange a forma, com que vem sendo transmitida pelos líderes de igrejas de modo geral, muitas vezes não tem ido de encontro a expectativa dos fiéis, não condizendo com sua realidade do dia-a-dia.

Como resposta a estas frustrações várias, parte dos evangélicos tem adotado o modo de “crer sem pertencer”, expressão cunhada pela socióloga britânica Grace Davie sobre o esvaziamento das igrejas, mas com a manutenção da crença observada na Europa Ocidental. A contestação aos modelos convencionais de Igreja é um fenômeno global. Em todo o mundo cresce o número de pessoas que defendem a possibilidade de uma vida espiritual madura e autêntica vivida em caminhos alternativos, muitas vezes através de uma fé praticada no seio da família ou em pequenos grupos autônomos.

Como encara a aparente promiscuidade entre religião e política no Brasil contemporâneo, considerando que muitos ministros religiosos estão a concorrer e a ser eleitos para órgãos de poder locais, estaduais e federais? 

Essa característica não é exclusiva do Brasil. Em todo o mundo tem havido uma mudança na percepção sobre a necessidade de envolvimento político da igreja cristã. No Brasil destaca-se a nova postura assumida pela Igreja Evangélica Assembléia de Deus que desde a sua implantação sempre pregou o distanciamento das questões políticas e sociais, baseados numa perspectiva milenarista de que o cristão era peregrino neste mundo, cidadão exclusivo do Reino dos Céus. A partir da segunda metade do século XX, esta postura modificou-se e hoje a maioria dos membros da bancada evangélica na Câmara dos Deputados do Brasil é composta por crentes da Assembléia de Deus, e esta até há pouco foi presidida por um fiel desta mesma igreja.

O envolvimento de religiosos com a política existe desde os primórdios em todas as nações. O reformador João Calvino foi um exemplo de como a religião pode influenciar positivamente a administração de uma cidade. Os Estados Unidos da América têm em sua fundação as bases do protestantismo e ainda o Congresso Americano possui uma bancada judaica.

A participação evangélica na política pode ser salutar, se esta for exercida dentro dos padrões da ética cristã. Cabe lembrar que um cristão, onde quer que esteja e seja em qualquer função que exerça, deve continuar a viver sua vida dentro da ética cristã. Qualquer ser humano, em qualquer função que exerça acaba por agir dentro de suas convicções e valores, que possuem na maioria das vezes base religiosa. Neste contexto, parece-me inevitável que existam evangélicos envolvidos na política. Se um grande percetual de brasileiros são evangélicos, estes também acabam por se fazer representar nos cargos políticos e administrativos. Lamento porém, por um lado a omissão das igrejas por um grande período do processo político brasileiro, e por outro, a falta de testemunho cristão de alguns políticos que se dizem evangélicos.

Até que ponto o pensamento pós-moderno pode (ou estará a) subverter a vivência religiosa e o compromisso espiritual nos meios cristãos?

A meu ver, o pensamento pós-moderno modifica a vivência religiosa, mas não a subverte. Há um novo comportamento se formando. O fenômeno tratado por Bauman como Modernidade Líquida prevê a facilidade de um trânsito religioso. Não há mais a relação de fidelidade à igreja onde se nasce. A pertença se torna não mais algo social, mas motivo de escolha pessoal. Há ao mesmo tempo que uma multiplicação e diversificação das instituições religiosas, uma menor fidelidade a estas instituições. Isto não implica menor fé ou menor espiritualidade. Pelo contrário, há uma busca constante por satisfação das necessidades espirituais, com uma liberdade maior de experiências espirituais. Este tipo de comportamento porém gera uma crença muito superficial e descompromissada. Não se tem tempo para “criar raízes” em uma igreja ou para compreender adequadamente uma doutrina. As igrejas que possuem ainda a estrutura de escola bíblica, por exemplo, vivem um esvaziamento das salas de aula. Não há interesse e nem disponibilidade em se estudar as doutrinas. Há sim a busca pela satisfação imediata das necessidades emocionais e espirituais. Não tendo estas necessidades satisfeitas em um sítio, há sempre a possibilidade de buscá-las em outros sítios religiosos.

No seu entender o fenómeno neopentecostal irá acabar com o ramo pentecostal tradicional, ou tende a desaparecer a médio prazo?

Nem uma coisa nem outra. A pluralidade religiosa do mundo contemporâneo é uma característica exigida pela modernidade. Quanto mais opções no “mercado” das religiões, mais possibilidades de busca e de encontro. A tendência é gerar uma coexistência. Assim como com a Reforma Luterana, não houve a extinção da Igreja Católica Romana, mas com o passar do tempo criou-se uma convivência, as “reformas” pentecostais não causam a extinção das igrejas que sofreram “reforma”. É característica do protestantismo se diversificar cada vez mais. Desde a possibilidade da “livre interpretação das Escrituras” defendida por Lutero, isto se tornou uma realidade. Haja vista as divisões protestantes ocorridas mesmo no século XVI, ainda durante a vida de Lutero. A tendência é a de pluralidade em um mundo plural. Mais importante que uma única forma de protestantismo é a disposição para o diálogo e a capacidade de acolhida do mundo da alteridade.

A Europa encaminhou-se para a modernidade, pela via do secularismo. Já a opção americana fez-se através da religião. Qual lhe parece o caminho mais conseguido, do ponto de vista das liberdades e da boa convivência entre os povos?

Não há como definir um caminho preferível, pois ambos podem tender a posturas fundamentalistas que impedem o diálogo e o exercício da alteridade. Sem estas duas práticas, a boa convivência entre os povos torna-se impossibilitada.

___________________________________

Notas Biográficas: Pós-Doutoranda pela Universidade Aberta/CLEPUL; Pós-Doutora em Antropologia e História pela Universidade de São Paulo (2014). Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992), mestrado em Ciências Biológicas (Botânica) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996) e doutorado em Ciências Sociais (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (2005). Atualmente é Docente no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e na graduação em Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Coordenadora dos cursos de Pós-Graduação Lato Sensu do Centro de Educação, Filosofia e Teologia na mesma Universidade. Tem experiência nas áreas de Botânica e Antropologia com ênfase em Etnobotânica, Antropologia Rural e Antropologia da Religião. Possui livros e artigos científicos publicados sobre etnobotânica, protestantismo rural, protestantismo brasileiro, islamismo e catolicismo. Desenvolveu pesquisas de campo no interior do Brasil, em Portugal, França e Itália.

__________________________

Livros Publicados:

RIBEIRO, LMP. A Libertação de Cativos sob o Manto de Nossa Senhora dos Remédios. Curitiba:Editora: Prismas, 2016.

____________ . Protestantismo Rural – Magia e Religião Convivendo pela Fé. São Paulo: Editora Reflexão, 2014.

____________. Os Mansos Herdarão a Terra – Estudo Etnobotânico de uma Área Rural Protestante. São Paulo: Editora Mackenzie, 2004.

Capítulos em Livros:

RIBEIRO, LMP. Bola de Neve: Um Fenômeno Pentecostal Contemporâneo In: Novas Perspectivas sobre o Protestantismo Brasileiro: Pentecostalismo e Neopentecostalismo.1 ed. São Paulo : Fonte Editorial, 2013, v.2, p. 213-237.

______________.Islamismo: Nem adesão, nem conversão. Reversão! In: Psicologia Social da Conversão Religiosa.1 ed. São Paulo : Reflexão, 2013, v.1, p. 1-20.

______________.Uma análise antropológica dos símbolos da Igreja Presbiteriana do Brasil In: Protestantismo e Religiosidade Brasileira.1 ed. São Paulo : Reflexão, 2012, v.1, p. 197-226.

_____________.Protestantismo rural: um protestantismo genuinamente brasileiro In: Novas Perspectivas sobre o Protestantismo Brasileiro.2 ed. São Paulo : Fonte Editorial / Paulinas, 2010, v.1, p. 189-230.

_____________.Protestantismo Rural: um protestantismo genuinamente brasileiro In: Novas Perspectivas sobre o Protestantismo Brasileiro.1 ed. São Paulo : Paulinas e Fonte Editorial, 2008, v.1, p. 197-240.


One thought on “Lidice Ribeiro: “Tanto o secularismo como a religião podem tender a posturas fundamentalistas”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s